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Publicado em: 20/05/2026

RIETS participa de processo que vai redefinir os marcos da Cooperação Ibero-Americana entre 2027 e 2030

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Ana Beatriz de Noronha

O Centro de Formação da Cooperação Espanhola, localizado no centro histórico de Cartagena das Índias, Colômbia, sediou, nos dias 6 e 7 de maio de 2026, o II Seminário de Reflexão sobre a Estratégia da Cooperação Ibero-Americana. O evento reuniu cerca de 70 representantes de diferentes instâncias do bloco de 22 países com o objetivo de desenhar os mecanismos estratégicos e operacionais que guiarão as ações multilaterais no quadriênio 2027-2030.

Essa reflexão, que ocorre em um cenário global desafiador, visa permitir que a Cooperação Ibero-Americana (CI) obtenha resultados com maior impacto direto na qualidade de vida dos cidadãos. Sob a liderança da Secretaria Pro Tempore (SPT) da Espanha, o seminário atualiza um processo de modernização institucional que teve seus primeiros marcos nas cimeiras de Cádis (2012) e Veracruz (2014).

Atendendo ao convite da Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB), a Rede Ibero-Americana de Educação de Técnicos em Saúde (RIETS) esteve representada pelo professor e pesquisador Helifrancis Condé Ruela, que integra a equipe da Cooperação Internacional da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, que exerce a Secretaria Executiva da Rede. Para Helifrancis a participação da RIETS no Seminário foi importante sob vários aspectos. “A RIETS foi a única das redes ibero-americanas sediadas na Fiocruz a participar do evento. Nós também fomos convidados na qualidade de especialistas sobre os temas relacionados à área da saúde e de formação para o setor”, explicou, completando logo em seguida: “Essas duas dimensões atestam o reconhecimento do trabalho realizado à frente da RIETS, que completou cinco anos em março, e da Rede Internacional de Educação de Técnicos em Saúde (RETS), que este ano completa 30 anos. Nossa participação foi tratada com muito respeito e eu, pessoalmente, senti que nosso trabalho está sendo muito valorizado”. 

A história e as mudanças lado a lado

A busca por eficácia não é nova no ecossistema ibero-americano. O processo iniciado em 2010 e consolidado em 2014 introduziu a lógica de Gestão Orientada para Resultados de Desenvolvimento (GORD). Aquela reforma também estabeleceu as abordagens transversais de trabalho e os Planos de Ação Quadrienais da Cooperação Ibero-Americana (PAQCI).

Durante mais de uma década, o modelo funcionou com base em três grandes prioridades estratégicas: coesão social, conhecimento e cultura. Essa estrutura permitiu que o bloco se posicionasse como um exemplo de sucesso global em cooperação regional. O modelo foi construído sob os pilares da horizontalidade, do consenso, da inovação e da inclusão social.

Contudo, após três décadas de atuação, o avanço das crises climáticas, as assimetrias econômicas pós-pandemia e a urgência por transformação digital exigiram uma revisão profunda. Os mecanismos anteriores, embora bem-sucedidos, mostraram sinais de esgotamento frente à velocidade das transformações globais. A ordem atual exige maior agilidade administrativa e um foco temático mais nítido para evitar a pulverização de recursos públicos.

Um único processo, duas fases

Para garantir um debate organizado e participativo, os países membros decidiram dividir a reformulação do bloco em duas etapas complementares:

  • Fase Estratégica: Dedicada à redefinição dos grandes objetivos políticos e setoriais de longo prazo.

  • Fase Operacional: Focada na criação de ferramentas, orçamentos, prazos e indicadores que viabilizem as metas estabelecidas.

A primeira fase ganhou forma na I Reunião de Ministros dos Negócios Estrangeiros, realizada em Sevilha, em julho de 2025. Na ocasião, as chancelarias concordaram em avançar para um planejamento mais estratégico e concertado, capaz de responder às demandas da cidadania. Dois meses depois, em outubro de 2025, o I Seminário de Cartagena reuniu todo o ecossistema institucional para desenhar os Objetivos Estratégicos Setoriais (OES), os quais foram validados politicamente na II Reunião de Ministros dos Negócios Estrangeiros, em 24 de novembro de 2025. Eles expandiram as três prioridades históricas para cinco novos eixos integrados:

  • OES1: Fomentar a educação, a cultura, o conhecimento e a inovação.

  • OES2: Promover a igualdade, a coesão e o desenvolvimento social.

  • OES3: Avançar para a sustentabilidade ambiental.

  • OES4: Reforçar a democracia, a estrutura institucional e o Estado de direito.

  • OES5: Impulsionar a transformação produtiva para o desenvolvimento sustentável.

As Alianças como inovação metodológica

O grande desafio deste último Seminário foi buscar transformar esses cinco objetivos abstratos em engenharia institucionalizável. A metodologia acordada prevê a criação de cinco Planos Operacionais Quadrienais, em substituição ao formato anterior do Plano de Ação Quadrienal da Cooperação Ibero-Americana (PAQCI). A meta central dessa mudança é o combate à dispersão de esforços, um problema recorrente em organizações multilaterais.

Para operacionalizar cada plano, o bloco criará uma Aliança coordenada diretamente pela SEGIB. Essa Aliança atuará como uma mesa de coordenação permanente que reunirá todos os atores relevantes do ecossistema: os países membros, os organismos setoriais (OEI, OISS, COMJIB, OIJ), os Programas e Iniciativas da Cooperação Ibero-Americana (PIPA) e as Redes Ibero-Americanas.

Para garantir que os planos tenham impacto real, cada Aliança passará por um exercício de afunilamento temático. Primeiro, serão definidos "Desafios" ambiciosos, mas concretos. Em seguida, para cada desafio, serão identificados no máximo de três a quatro "Setores" (âmbitos de atuação específicos). Serão esses setores que abrigarão as carteiras de projetos práticos.

O novo desenho busca, de forma pragmática, aumentar a capacidade do bloco de atrair financiamento externo. Ao apresentar programas integrados, com metas claras, indicadores auditáveis e menor fragmentação, a Cooperação Ibero-Americana eleva seu poder de barganha frente a fundos globais de desenvolvimento, bancos multilaterais de crédito e parceiros extrarregionais.

O que não muda

Um dos pontos considerados permanentemente definidos é o respeito à assimetria e à soberania dos Estados. Nesse sentido, o documento metodológico visa reforçar que as carteiras de projetos serão executadas sob os princípios da voluntariedade e da autonomia funcional e operacional de cada agente. Isso significa que nenhum país ou organismo será obrigado a aderir a uma iniciativa que não se alinhe com suas prioridades nacionais ou capacidades orçamentárias.

A organização também estabeleceu uma linha clara de demarcação jurídica e técnica: as carteiras de projetos da nova Estratégia da Cooperação Ibero-Americana (ECI) não se confundem com a Cooperação Sul-Sul bilateral ou trilateral. Estas últimas continuarão sendo desenvolvidas de forma totalmente autônoma pelos Estados-membros da SEGIB.

Os próximos passos do processo de mudança

Com o encerramento do II Seminário de Cartagena, o trabalho técnico entra em sua fase mais intensa. Os Responsáveis de Cooperação das 22 nações ibero-americanas têm a tarefa de preencher as estruturas aprovadas, definindo os desafios, setores e projetos que comporão os cinco tomos operacionais.

O cronograma político já está fixado. Todo o arcabouço técnico e a redação final da Estratégia da Cooperação Ibero-Americana (ECI) serão levados à mesa dos Chefes de Estado e de Governo na próxima Cimeira Ibero-Americana, que será realizada em Madri, na Espanha, em novembro de 2026. A aprovação na capital espanhola marcará o nascimento formal da cooperação para a transição de década, com vigência programada a partir de 1º de janeiro de 2027.

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