Acordo Pandêmico da OMS: cooperação, equidade e soberania no centro da nova arquitetura global de saúde

Em um apelo dirigido aos líderes do G7, G20, BRICS e demais países, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, defenderam a conclusão do Acordo Pandêmico da OMS, considerado um marco fundamental para fortalecer a capacidade global de prevenir e responder a futuras emergências sanitárias.
Mais do que um documento técnico, a "Carta aberta aos líderes do G7, do G20, do BRICS e de todas as nações sobre a finalização do anexo relativo ao acesso a patógenos e à partilha de benefícios do Acordo sobre Pandemias da OMS" representa um chamado político para que os países transformem as lições deixadas pela pandemia de COVID-19 em compromissos permanentes de cooperação internacional.
Os signatários retomam a memória da maior crise sanitária do século XXI: hospitais superlotados, profissionais de saúde exaustos, famílias impossibilitadas de se despedir de seus entes queridos e milhões de vidas perdidas. Segundo estimativas citadas no documento, até 20 milhões de pessoas morreram em decorrência da pandemia.
A mensagem central é clara: a humanidade fez uma promessa após a COVID-19 — não enfrentar novamente uma pandemia sem estar preparada — e agora precisa concluir os mecanismos necessários para cumprir essa promessa.
A última peça do acordo: o compartilhamento de patógenos e benefícios
O principal ponto pendente para a entrada em vigor do Acordo Pandêmico é o anexo sobre Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS, na sigla em inglês).
Esse mecanismo busca estabelecer regras internacionais para uma questão central da segurança sanitária global:
Como garantir que informações e amostras de novos agentes infecciosos sejam compartilhadas rapidamente, permitindo o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e testes, sem repetir as desigualdades observadas durante a pandemia de COVID-19?
Durante a crise da COVID-19, o compartilhamento rápido de dados científicos possibilitou o desenvolvimento acelerado de vacinas. Entretanto, muitos países tiveram dificuldades para acessar esses produtos em quantidade suficiente e no tempo necessário.
O PABS pretende criar uma relação de confiança:
- países que identificam e compartilham rapidamente novos patógenos devem ter garantias de acesso aos benefícios gerados;
- pesquisadores e empresas precisam de regras claras para desenvolver soluções;
- a comunidade internacional precisa de mecanismos previsíveis para responder rapidamente a uma emergência.
Três mensagens políticas da carta
1. A preparação para pandemias exige liderança política
A carta argumenta que as questões restantes não serão resolvidas apenas por especialistas ou negociadores técnicos.
Os líderes nacionais precisam demonstrar compromisso político e orientar suas equipes negociadoras a buscar consenso.
Um dos pontos destacados é que o Acordo Pandêmico não representa perda de soberania dos países. O documento afirma que decisões como políticas nacionais de saúde, restrições de circulação ou medidas sanitárias continuarão sob responsabilidade dos Estados.
2. Equidade é uma estratégia de segurança global
Um dos conceitos mais fortes da carta é que equidade não deve ser vista apenas como uma questão moral, mas como uma estratégia de proteção coletiva.
A lógica apresentada pelos signatários é simples:
Uma ameaça sanitária que permanece sem controle em qualquer região do mundo pode se espalhar novamente para todos os países.
Nesse sentido, garantir acesso mais justo a vacinas, tratamentos e tecnologias não beneficia apenas países vulneráveis — fortalece a segurança sanitária mundial.
A carta também destaca que regras internacionais estáveis podem beneficiar governos, universidades e empresas ao reduzir incertezas durante futuras emergências.
3. O tempo é um fator decisivo
O documento alerta que a próxima pandemia não aguardará que os países estejam preparados.
Entre os fatores que aumentam os riscos estão:
- mudanças climáticas;
- alterações no uso da terra;
- maior interação entre humanos e animais;
- transformações nos sistemas agrícolas;
- avanços da biotecnologia acompanhados de desafios de biossegurança.
A carta pede que a próxima rodada de negociações, prevista para julho, seja tratada como uma oportunidade decisiva para concluir o acordo.
Diplomacia da saúde: do enfrentamento da COVID-19 para um novo modelo global
A carta também representa um movimento importante da chamada diplomacia da saúde global, área em que questões sanitárias passam a ser tratadas como temas estratégicos das relações internacionais.
“As nações do mundo, juntas, estiveram presentes em todos os grandes momentos da história da saúde humana. Juntas, ajudamos a erradicar a varíola da Terra. Levamos a poliomielite ao limite da história. Recuamos o avanço do HIV, da tuberculose e da malária, salvando mais vidas do que qualquer um de nós será capaz de contar. Concluir este Acordo não é um afastamento desse legado. É o seu próximo capítulo natural — e está ao nosso alcance.”
A pandemia mostrou que nenhum país consegue proteger sua população isoladamente diante de ameaças infecciosas globais.
Ao defender cooperação, compartilhamento científico e distribuição justa de benefícios, o documento propõe uma mudança de paradigma da resposta emergencial para a prevenção, da competição para a cooperação, e da desigualdade para a segurança coletiva.
“Fizemos uma promessa aos milhões que perdemos e às famílias que ainda carregam sua ausência. Que sejamos a geração que cumpre essa promessa. Finalizar este Acordo, por meio de um compromisso compartilhado entre nós, é a nossa promessa coletiva de proteger a humanidade. Que possamos cumpri-la juntos, e a tempo.”



